📌 Introdução: o incômodo em pagar por serviços
Nossa sociedade como um todo depende de uma gama de serviços essenciais — transporte, limpeza, cuidado, alimentação — mas os profissionais que prestam esses serviços são socialmente desvalorizados. Por que somos assim?
Luciana (nome e situação fictícios, será?) está com pressa. Ela olha rápido para seu smartwatch, são 18:47 e vê que está saindo do trabalho atrasada. Para piorar, está chovendo há mais de duas horas e o trânsito fica um caos em dias assim. Ela precisa chegar a tempo para buscar seu filho na escola, esse é um trajeto que ela faz todos os dias e ele já está na memória do aplicativo de transporte que ela mais usa para se locomover. Ela ignora seu smartphone novo vibrando com novas mensagens e desce o elevador já solicitando uma viagem no aplicativo. Antes de chegar ao térreo, ela tem uma grande surpresa: a corrida estava custando quase o dobro do valor que ela está acostumada a pagar. Ela lembra que o ponto de táxi mais próximo fica a 4 quarteirões, olha para seus sapatos de grife novos e decide que, apesar de achar um absurdo, ela vai aceitar o preço mais alto. Ela pensa, “Feliz é esse motorista, recebendo mais pra trabalhar o mesmo tanto só porque está chovendo!”
Se você usa aplicativos de transporte para se locomover, são enormes as chances de você já ter se sentido no lugar de nossa amiga Luciana. Nessa situação corriqueira existem tantas análises interessantes sobre a maneira como nossa sociedade funciona, que não podíamos deixar de olhar pra essa questão complexa, vamos?!
📌 A economia compartilhada e suas consequências
Antes de mais nada, precisamos comentar um dos fenômenos desse século, ele se chama “economia compartilhada”. Para explicar como ela surgiu, precisaríamos de um artigo inteiro, o objetivo aqui não é esse. Precisamos apenas entender duas coisas importantes: o que é economia compartilhada e qual a principal consequência para nossa vida cotidiana decorrente da adoção desse modelo de venda de serviços em nossa sociedade.
A economia compartilhada envolve pagar para usar, de maneira compartilhada ou não, um bem que você não dispõe e/ou não tem capacidade financeira nem vontade de comprar nesse momento. As vantagens mais claras para quem “aluga” seus bens são fazer um dinheiro a mais com algo que está parado ou ainda, fazer uma renda extra dirigindo no mesmo trajeto que faria sozinho para ir ao trabalho todos os dias.
São muitos os aplicativos, sites e empresas que intermediam alugueis por temporada mesmo sem ter nenhum apartamento, que juntam motorista e passageiro para dividirem uma viagem mesmo sem ter frota de carros própria, que vendem e entregam comida mesmo sem ter nenhum restaurante. A modernidade percebeu que existe um valor enorme em buscar um uso mais consciente dos recursos, sejam eles apartamentos parados ou dinheiro para gastar nas férias. Isso é ótimo para todos os consumidores, a tendência mais direta é uma diminuição no preço das hospedagens porque haverão mais lugares disponíveis para estadia. Essa relação é muito óbvia, né?! Ela é conhecida como oferta x demanda, é responsável pela precificação de produtos e serviços em nossa sociedade.
A maneira mais comum de observar essa lógica em ação é perceber como o preço das frutas e verduras variam ao longo do ano por conta da safra e da entresafra. Eu sei que corro o risco de soar repetitivo, mas preciso destacar o quanto é óbvio que, quando existem mais maçãs disponíveis para venda o preço cai e quando existem menos maçãs no mercado o preço sobe.
📌 O desconforto com o preço dinâmico
Deixemos as maçãs de lado e voltemos pro exemplo de nossa amiga imaginária Luciana. Ela se revoltou pois teve que pagar 18 reais em uma corrida que normalmente dava 10 reais. Será que se ela se propusesse a olhar a situação de maneira complexa, considerando todas as variáveis, ela poderia evitar essa sensação de estar sendo explorada? Aposto que sim! Vamos ajudar a Luciana a entender melhor porque é justo pagar mais caro?!
Não tem como evitar, dentro do contexto de economia compartilhada, a consideração de que um motorista de aplicativo é alguém que, buscando uma renda extra, aluga o próprio carro juntamente com a venda de sua prestação de serviço, para alguém que não tem carro mas precisa se deslocar.
Sim, eu sei que segundo dados do IPEA mais de 63% dos motoristas de aplicativos trabalham mais de 9 horas por dia, mas não podemos supor que essa seja sua ocupação principal e única. Se os próprios motoristas decidem quando ligam o aplicativo e disponibilizam seus carros para os passageiros, não seria razoável supor que o número de motoristas disponíveis para receber corridas varie ao longo do dia? Inclusive, em um dia chuvoso a tendência é que o número de motoristas caia enquanto o número de passageiros suba, pois até quem volta de ônibus todos os dias escolhe voltar de aplicativo em um dia assim.
Ora, se já vimos que a lógica da oferta x demanda se aplica para a precificação de diversos produtos, porque a mesma dinâmica não deveria ser aplicada aos preços das corridas quando tem menos ou mais motoristas disponíveis? Essa é exatamente a lógica por trás do “preço dinâmico” que encarece a corrida em dias mais movimentados.
Essa é a maior consquência da adoção do modelo de economia compartilhada para a vida de todos nós: as relações de oferta e demanda se fazem cada vez mais presentes independentemente da nossa noção de “preço justo”. Talvez era mais fácil aceitar, e se acostumar, quando o taxista ligava a bandeira 2 aos domingos e feriados ou ainda no mês de dezembro, para garantir um 13° salário, mas a lógica é a mesma.
📌 Valor e desprezo: uma herança cultural
Porque então, mesmo sendo uma sociedade que gasta muito consumindo produtos, nós temos uma percepção de valor tão baixa para quem presta serviços? Infelizmente a resposta está intrisicamente ligada ao nosso passado como país. Nossa herança escravocrata construiu uma sociedade baseada na desigualdade onde servir é sinônimo de ser subalterno. Gilberto Freyre diria que casa-grande e senzala não são mais lugares físicos e sim estruturas mentais.
Alguém pode vir com o seguinte argumento: Mas será que o preço baixo pago para esses profissionais da industria de serviços não é um “preço justo” também baseado na lei da oferta x demanda? Há de se destacar que, para prestar esses serviços, é exigido um nível de educação e preparo menor gerando assim uma massa enorme de trabalhadores dispostos a receber pouco.
Veja o tamanho da crueldade, estamos falando de pessoas que precisam comprar comida, não tem acesso a um modelo público de educação de qualidade e muitas vezes não tem outra escolha a não ser o sub-emprego. Portanto, é óbvio que a oferta x demanda pode e deve ser aplicada à frutas, apartamentos e carros com motoristas disponíveis, mas não podemos ser uma sociedade que coloca os seres humanos, iguais a mim e a você, prestadores de serviços, que sustentam a sociedade, na mesma categoria. Precisamos valorizar pessoas como pessoase não como coisas, isso é a base do conceito de dignidade humana.
Pessoas que tratam mal o garçom ou que dão bom dia a todos menos a quem limpa o banheiro, estão em todos os lugares. Babás, domésticas e motoristas são considerados “descartáveis” e seu trabalho não é reconhecido financeiramente mesmo quando são muito bons em suas funções. Como pode existir o pensamento, da parte do patrão, de que o profissional não faz mais que sua obrigação pois recebe pra isso, mas o mesmo patrão, quando se vê na posição de empregado na empresa que trabalha, acha que ganha pouco e gostaria de ter seu trabalho reconhecido? Que paradoxo fascinante!
📌 Respeite quem lhe serve e sempre serás bem servido!
De uma vez por todas, entenda: Conforto custa caro! Queremos ser bem servidos, mas será que estamos dispostos a reconhecer o valor de quem nos serve? Estamos dispostos a valorizar uma profissional que está há tempos trabalhando bem conosco ou preferimos manter uma rotatividade alta de profissionais só pra pagar mais barato? Será que quem tem o melhor carro, o melhor celular, as melhores roupas faz questão de pagar mal para quem lhe presta serviços somente porque os serviços não são tangíveis?
Precisamos inaugurar uma nova era na nossa sociedade. Uma era onde o ser humano e sua humanidade são considerados e colocados acima de objetos inanimados. Pessoas são subjetivas, complexas e singulares e somente considerando a nossa humanidade integralmente iremos alcançar nossas melhores versões.


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