A série “Duelo de gigantes” nasceu com uma proposta muito simples: estudar ideias complexas através da comparação das teorias de 2, ou mais, grandes filósofos, contextualizando essas teorias com os filósofos importantes que vieram antes (pois nenhum conhecimento surge “do nada”), com os filósofos que vieram depois e também, talvez o mais importante de tudo, relacionando as teorias com o momento histórico que cada pensador viveu pois, ao fazer isso, notamos uma influência enorme da realidade de cada filósofo em suas teorias. Essa abordagem busca transformar algo complexo em algo mais simples para tornar mais fácil para o nosso leitor entender as teorias sem “achismo”.
No primeiro artigo da série (link) nós lançamos a base para a comparação que pretendemos fazer, Marx x Weber, e nesse segundo texto iremos nos aprofundar nas ideias de um dos “lados” dessa disputa metafísica estudando as ideias de Karl Marx.
Somos muito bombardeados pela teoria social de Marx, mas o ponto de partida para o entendermos “de verdade” é mais epistemológico que social. Vamos começar estudando seu antecessor famoso, Hegel. A filosofia Hegeliana buscou responder à pergunta “Por que o mundo é do jeito que é e não de um outro jeito qualquer?” Essa dúvida se aplica a todos os campos da vida humana e foi feita por vários outros pensadores antes de Hegel, mas sua resposta criou novos paradigmas que permanecem válidos para alguns pensadores até hoje.
A dialética de Hegel e a inversão proposta por Marx
Aprendemos com Hegel que a história se move por contradições e superações (tese, antítese, síntese). Para ele, a razão das coisas serem como são no mundo seria espiritual, ou seja, as pessoas tinham ideias sobre como o mundo “deveria ser” e, ao projetar individualmente e coletivamente essa visão no mundo, acabam construindo a nossa realidade. As ideias começam na mente e depois vão ao mundo, portanto o mundo é consequência das nossas ideias.
Marx rompe com essa lógica ao mostrar que, na realidade, essa relação se dá de forma contrária. Nossas ideias são como são por causa do mundo ser do jeito que é. Nesse caso, o mundo estaria dado, com todas as suas contradições, a todos no evento do nascimento (essa inclusive é a base de uma das teorias mais famosas e aceitas da filosofia, o existencialismo). Portanto, o mundo viria antes das ideias, ou ainda, só temos as ideias que temos porque o mundo é do jeito que ele é, se a realidade do mundo fosse outra, teríamos outras ideias.
Analisando mais profundamente essa segunda visão, percebemos que a inversão da lógica espiritual de Hegel muda tudo: em vez de começarmos pelas ideias puras, começamos pelo trabalho, pela técnica, pela propriedade e pela forma como a sociedade é comandada socialmente pois aquilo que determina a vida social e que move a história humana é a vida material imediata. As pessoas se uniram para viver em tribos e cidades cada vez maiores e mais complexas com o intuito de melhorar suas chances de sobrevivência em face da natureza hostil. A partir daí, essa nova realidade social passou a determinar como nossa vida se organiza. Precisamos então entender como as pessoas trabalham e se organizam para sobreviver se quisermos explicar o mundo.
Base, superestrutura e ideologia: onde cada coisa fica
O início do diagnóstico de Marx divide a sociedade em dois polos distintos: infraestrutura e superestrutura. A base da vida social é a infraestrutura: ela mostra diretamente como a sociedade produz sua vida material. Aqui entram: técnicas, ferramentas, máquinas e o conhecimento técnico. O foco é entender como eles influenciam na organização social do trabalho e nas relações de produção (quem detém os meios de produção, como se contrata, como se reparte o que se produz, que direitos e deveres existem dentro e fora do local de trabalho).
Já a superestrutura é o “andar de cima da sociedade” que legitima, organiza e naturaliza a base: Estado, leis, tribunais, escolas, igrejas, imprensa, costumes, artes. Nada disso é acaso, pois a superestrutura é o que dá forma simbólica e jurídica ao modo como produzimos e exploramos a natureza e uns aos outros.
Em Marx, portanto, a base condiciona a superestrutura, e a superestrutura reage sobre a base (educa, pune, organiza, legitima). Esse é o tabuleiro sobre o qual os demais conceitos marxistas sociais vão se encaixar.
Mergulhando mais profundamente nos conceitos importantes para Marx, temos que: forças produtivas são tudo que nos permite produzir melhor, do martelo ao tear mecânico, do software à logística. Relações de produção são as regras de propriedade e comando do trabalho, quem manda, quem executa, quem fica com o quê e como o lucro é distribuído.
Quando as forças produtivas avançam, elas pressionam as relações de produção antigas. Se as relações não se ajustam, nasce a crise. Para Marx, a história anda assim: as técnicas puxam, as estruturas sociais resistem e há um conflito que inicia a transformação. Ele insiste ainda que o capitalismo não é “a natureza das coisas”, é simplesmente um modo de produção histórico, que substituiu outros e que um dia será substituído.
Cada modo tem sua lógica: no feudalismo por exemplo, a terra e as obrigações pessoais estavam no feudo e na figura do senhor feudal. O clero, munido de seus dogmas, criava a justificava para a exploração. Consegue enxergar a base e a superestrutura nessa realidade histórica? Já no capitalismo, a mercadoria, o dinheiro, o salário e a empresa determinam as possibilidades de vida de cada indivíduo seja ele/ela de má ou boa índole.
Se grupos sociais passam a ter interesses opostos por conta das mudanças nos modos de produção, o conflito aparece como luta de classes. No século XIX, a contradição central é entre burguesia (proprietária dos meios de produção) e proletariado (que só tem a vender sua força de trabalho). Não se trata de “briga moral” entre as classes para determinar quem é mais ou menos necessário à sociedade, ambos são igualmente necessários, mas sim de um conflito de interesses: lucros sobem quando salários caem e/ou as jornadas de trabalho aumentam. Greves, associações e sindicatos surgiram dessa contradição e permanecem ativos na sociedade atual.
A ideologia que sustenta, tanto a base quanto a superestrutura, não é “mentira voluntária”, mas um conjunto de representações e inferências valorativas que fazem parecer natural o que é histórico. É quando a gente diz “sempre foi assim”, “é do mercado”, “cada um no seu lugar”, como se essas regras não tivessem sido criadas em determinado tempo e consolidadas por algum interesse.
O capitalismo que Marx observou
Agora, vamos ao cenário? Numa Alemanha acelerando sua unificação e com sua economia mudando, baseada na máquina a vapor, as fábricas multiplicavam teares, caldeiras, eixos, correias e outros. A lógica da vida no campo cedia lugar à vida urbana e fabril, além de o tempo do relógio capitalista se tornar determinante para a vida social e pessoal.
O trabalhador do campo, que vivia do que plantava e da venda de sua produção, passa a vender sua força de trabalho por um salário ao mesmo tempo em que a empresa busca extrair o máximo de produtividade de cada funcionário. Crianças e mulheres são incorporadas em massa às oficinas e surgem as primeiras leis fabris para limitar jornadas e o trabalho infantil. As cidades aumentam enormemente de tamanho sem saneamento e urbanização à altura. É nessa paisagem de fundo que os conceitos de Marx ganham nitidez.
Qual a relação entre a alienação (quando o trabalho perde o rosto) e a mais-valia (onde nasce o lucro)?
“Alienar” é separar. Marx mostra quatro separações que o trabalho industrial trouxe em relação ao trabalho manual, baseado em ofícios e técnicas, que vigorou desde a idade média. Infelizmente ler sobre isso dói porque é reconhecível:
- Alienação do produto: Mesmo que você construa algo, a obra não é “sua” nem na propriedade e nem na autoria.
- Alienação do processo: Você não participa do processo de decidir como fazer, os processos são originários “de fora” da realidade do trabalhador.
- Alienação dos outros: colegas viram concorrentes, clientes viram “caixa” e as relações sociais viram patrimônio.
- Alienação de si mesmo: o trabalho não expressa sua potência, é pura sobrevivência.
Além disso, já vimos que a burguesia e o proletariado têm interesses claramente conflitantes e que a “lógica de mercado” impulsiona as empresas a aumentarem o lucro a cada período de apuração para serem atraentes para os investidores. Portanto, ao tentar responder à pergunta “Como a empresa ganhaca vez mais dinheiro?” Marx diz: extraindo mais valor do trabalho do que o valor que se paga por ele. Isso pode ser feito através de uma mais-valia absoluta, ou seja, aumentar horas de trabalho ou ainda através da mais-valia relativa, aumentar produtividade para produzir mais no mesmo tempo, sem elevar os salários. No tear mecânico, uma pessoa produz o que antes exigia várias. O custo por peça cai e a margem sobe, mas esse ganho, que aparece como eficiência operacional, não chega ao trabalhador.
Vemos coisas sendo trocadas por coisas: mercadoria por dinheiro e depois dinheiro por mercadoria. O que desaparece nessa realidade é a relação entre pessoas que produziram aquele valor. A mercadoria parece ter vontade própria (“o preço subiu”, “o mercado quis”), e nós esquecemos que existem pessoas por trás com tempo, habilidade, sofrimento e invenção. Esse “encantamento” pelos produtos é central para a ideologia que sustenta a desigualdade na divisão do resultado do trabalho: coisas com rosto, pessoas que as produzem sem rosto.
Onde Marx acerta, e muito, para seu tempo
Lendo o século XIX com Marx, muita coisa ganha contorno que outros autores não haviam dado com tanta precisão.
- Monopólio e concentração do capital: empresas maiores engolem menores ainda que as menores sejam capazes de oferecer uma realidade social melhor para seus trabalhadores.
- Disciplina do trabalho: relógio, supervisão e rotinas. Nosso corpo é adestrado para funcionar inspirado na máquina.
- Pauperização relativa: ainda que os indicadores sociais melhorem, a distância entre classes se aprofunda.
- Internacionalização: produção, insumos, crédito e mercados já são transnacionais mesmo que a população nacional precise daqueles produtos.
Ainda assim, no final do século XIX, alguns acontecimentos questionaram as previsões lineares marxistas: camadas médias urbanas crescem desafiando a lógica simplista do conflito burguesia x proletariado e também causando um embaralhamento no mapa de classes(funcionários, técnicos, lojistas, servidores públicos), o estado social começa a nascer (seguros, aposentadorias, regulação), abrindo espaço para mediações de conflitos sociais e, o nacionalismo e a influência de culturas religiosas na organização da vida social crescem, sugerindo que valores e crenças também movem a história.
Nada disso invalida Marx mas amplia o problema apontado por ele. É nesse terreno que Weber vai perguntar: qual o sentido que as próprias pessoas dão às suas ações? Quais os valores que organizam a sociedade? Quais as instituições que racionalizam o mundo?
Marx precisa ser lido no seu tempo
Ler Marx no século XIX não é “museu”, é clareza! Suas categorias nascem de uma paisagem material muito específica: fábricas, relógios, leis, cidades. Por isso são poderosas para explicar aquele mundo e, por derivação, iluminar muitas engrenagens do nosso. Mas o próprio século XIX já trazia pistas de que ideias e valores também contam, e muito.
No próximo texto da série, Weber entra na disputa com uma provocação: e se a ética, a religião e a burocracia também forem motores importantes da sociedade e não apenas consequência da vida material? Voltaremos a esse ringue em breve. Inscreva-se no quadro abaixo para receber o Artigo 3 assim que sair e siga pensando como a gente: compreender o mundo é o primeiro passo para transformá-lo.
LEITURA RECOMENDADA:
Para se aprofundar na análise de hoje, a leitura destes livros é recomendada:
A ideologia Alemã – por Friedrich Engels (Autor), Karl Marx (Autor), Milton Camargo Mota (Tradutor)
O capital – por Karl Marx (Autor), Paul Lafargue (Autor), Abguar Bastos (Tradutor)
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