É muito fácil olhar para a realidade que vivemos e achar que estamos no ápice da civilização humana. A internet, por exemplo, oferece acesso facilitado a toda a base de conhecimentos acumulados da humanidade. Antes dessa “evolução”, achávamos que a barreira entre o ser humano e a informação era o acesso, porém estávamos errados. Mesmo estando a 1 clique de “dados”, seguimos presos em “opiniões”.
É um dilema antigo: cada um de nós parece viver de acordo com a sua própria “verdade”, mas será que existe mais de uma verdade? Imersos em uma realidade como essa, de que maneira nós podemos saber quem tem razão? Ou ainda, o que é o conhecimento verdadeiro e o que é opinião?
Talvez falando assim seja difícil de lembrar, mas pense naquela reunião de família onde de um lado, um tio distante do interior ficava dizendo que as vacinas não funcionam e que ele conhece várias pessoas que morreram logo depois de tomar uma vacina. Ele oferece te apresentar parentes dessas pessoas ao mesmo tempo que diz que prefere se tratar usando remédios naturais receitados pela “benzedeira” que mora na sua região. Isso tem funcionado desde sempre para ele e ele ainda pode relatar mais de 50 casos em que alguém se curou só com remédios naturais.
Do outro lado aparece outro tio, formado em medicina, que é capaz de trazer artigos de imunologia que explicam o princípio de funcionamento das vacinas e explicam também como elas agem no sistema imunológico tornando esse sistema mais preparado para combater uma infecção mesmo que nosso corpo nunca tenha tido contato com a doença anteriormente.
O que define, de maneira direta e sem margem para dúvidas, quem está certo e quem está errado? Será que é uma série de experiências pessoais ou será que é a evidência verificada? A realidade é que nossa sociedade está construindo muralhas entre os indivíduos sempre que alguém defende opiniões e crenças como se fossem conhecimento. Chegou a hora de entender a diferença e começar a construir pontes! Adeus fake news!!!
O Começo: A Doxa e a Episteme Grega
Não é de hoje que a filosofia se dedica a definir o que seria o “conhecimento verdadeiro” em oposição às ilusões da mitologia. Até existe um ramo da filosofia, chamado de Epistemologia, que estuda somente isso. Porém essas pesquisas filosóficas sempre estiveram mais voltadas a como nós processamos eventos e criamos conhecimento a partir deles. As duas principais correntes que se destacaram ao longo da história foram o Racionalismo, que defende que nosso aprendizados se dá por meio da razão como mediadora do mundo ao redor, e o Empirismo, que defende que o aprendizado se dá por uma série de experiências sucessivas.
No entanto, nosso objetivo aqui não é entender como processamos as informações, é combater a epidemia de opiniões travestidas de verdade! Portanto precisamos nos aprofundar em outro ramo da filosofia: a filosofia da ciência. O objetivo desse ramo é entender a ciência, os cientistas e os seus métodos de maneira crítica e reflexiva para julgar o processo científico em sua totalidade e validar o seu resultado final. Para tratar nossa epidemia, devemos pensar nas consequências sociais e morais da divulgação, e da não-divulgação, do conhecimento científico e também da divulgação do conhecimento não científico como se fosse científico.
Olhando para trás, vemos que os gregos (sempre eles!) foram os primeiros a estabelecer uma diferença entre aquilo que era verdade e aquilo que era opinião. Sócrates dizia que a opinião “doxa” era diferente da verdade “episteme”. Para ele, o processo filosófico começava justamente ao confrontar a opinião com o intuito de colocá-la à prova e ver se ela era verdade. O que chama atenção no pensamento de Sócrates é que ele defendia que o caminho para a verdade era o autoconhecimento.
Já Aristóteles buscou fundamentar sua busca pela verdade através da associação lógica, ou seja, como a confirmação de uma, ou mais, verdade pode servir como base para concluir algo que ainda não sabemos. Exemplo, se todo homem é mortal e se Sócrates é homem, então Sócrates é mortal.
A “virada” trazida por Aristóteles em relação à Sócrates está relacionada à morada da verdade. Já vimos que Sócrates defendia o autoconhecimento como caminho para iluminação, ou seja, a verdade está dentro de nós. Para Aristóteles a verdade está “no mundo” e devemos obtê-la através da observação de eventos amparados por ferramentas práticas, como o método de estudo, de observação e as próprias condições da experimentação em si.
Do Senso Comum à Busca por um Método: Bacon e Descartes
Essa dualidade na abordagem para diferenciar conhecimento de opinião seguiu durante toda a idade média até encontrar na modernidade Bacon (1561–1626). Ele sistematiza o método empírico e experimental em Novum Organum (1620) baseado no método indutivo, e defende que o aprendizado “popular” prova que o homem não precisa do estudo, ou da mediação da razão, para ter acesso à verdade. Um agricultor experiente, que sabe dizer se vai chover ou não apenas olhando para o céu, seria um exemplo de que a verdade pode ser alcançada através de uma série de observações controladas sem que haja um “estudo”.
Em oposição a Bacon, Descartes (1596–1650), estabelece o método racional, ou dedutivo, como critério de verdade em Discurso do Método (1637). Descartes traz a dúvida como ferramenta essencial no processo de checagem de qualquer verdade. Ele se pergunta “será que eu estou realmente comendo quando acho que estou comendo?” ou “será que eu estou andando quando eu acho que estou andando?”. Assim, ele chegou à máxima “penso, logo existo” pois percebeu que conseguimos ter certeza que estamos pensando ao pensar sobre qualquer coisa, incluindo o conteúdo dos próprios pensamentos. A existência do pensamento é a primeira certeza da existência humana, a partir dele toda a realidade se desenvolve.
A Régua de Kant: Opinião, Crença e Conhecimento
A busca pela verdade estava se tornando extremamente objetiva, matemática, apesar de sabermos que existem coisas no mundo que não obedecem a objetividade da matemática. Até que chegou Kant (1724-1804) e uniu Bacon e Descartes com a sua “teoria do juízo” que define juízos sintéticos como frases que acrescentam algo à nossa compreensão do mundo, ou seja, frases que ensinam alguma característica de alguma coisa.
Eu poderia até explicar a diferença entre juízos sintéticos a priori e a posteriori, mas vamos “pular” para a conclusão da interpretação Kantiana desses conceitos. Kant percebeu que existem critérios objetivos e universais mas também critérios subjetivos e condicionais que levam as pessoas a afirmarem algo como uma “verdade”.
A partir daí ele criou uma “régua” que categorizou o conhecimento, ou “a verdade”, em 3 níveis:
- Opinião: É uma afirmação totalmente subjetiva, não existem fundamentos práticos para definir essas afirmações como “verdades”. Exemplo: “Eu acho que o próximo filme do Senhor dos Anéis vai ser incrível!” Tenho como saber disso antes do filme ser lançado e antes de ver o filme?
- Crença: Possui uma verdade objetiva para a pessoa que fala, mas é subjetiva para outras pessoas. É uma convicção pessoal. Exemplo: “Eu creio em Deus.”
- Conhecimento: Possui fundamento subjetivo e objetivo. É uma certeza racionalmente justificável, universalmente válida e comunicável. Exemplo: “A Terra gira em torno do Sol.”
Opiniões e crenças possuem uma importância muito grande para a vida humana e determinam diversas decisões diárias, porém somente o conhecimento pode ser considerado uma verdade universalmente válida já que ele representa afirmações que são verdadeiras tanto na dimensão subjetiva quanto na objetiva para todos os seres humanos.
O Desafio Complexo do Presente
Apesar de Kant ter criado essa teoria há mais de 200 anos, a confusão entre opinião, crença e conhecimento é um desafio muito atual. Continuamos perdidos e a internet piorou ainda mais essa confusão pois, através de um post de uma rede social, QUALQUER PESSOA pode afirmar qualquer coisa sobre qualquer um e ter muita visibilidade nessa afirmação mesmo que ela não seja verdadeira! Normalmente a mentira ainda é polêmica, o que contribui para sua viralização, já a verdade não “engaja” tanto.
Opiniões e crenças disfarçadas de conhecimento são um risco de vida para indivíduos e podem virar um risco para a sociedade. A ciência, com seu método rigoroso e sua busca por evidências, é a única ferramenta possível para nos guiar nessa confusão.
Sabemos que a ciência tem suas limitações pois o mundo que vivemos não é totalmente objetivo e que a própria ciência tem seus interesses, que podem acabar desviando a busca pela verdade, mas somente o olhar crítico e o questionamento de todas as fontes de informação podem garantir alguma rigidez no acesso da “verdade”.
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1. O Manual da Dúvida: “Discurso do Método” (René Descartes) O texto é curto, mas é uma marretada. Foi aqui que Descartes decidiu duvidar de tudo até sobrar apenas a verdade. Se você quer aprender a questionar a realidade (e o seu próprio pensamento) como um profissional, comece por aqui. É a base de tudo. 👉 [ADQUIRA AQUI] https://amzn.to/49P2c7T
2. A Vacina Contra a Burrice: “O Mundo Assombrado pelos Demônios” (Carl Sagan) Esse livro deveria ser obrigatório na escola. Sagan desmonta bruxaria, alienígenas, curas milagrosas e pseudociência com uma elegância que chega a dar raiva. É a luz de velas na escuridão da internet atual. Se você não leu, você está desarmado. 👉 [ADQUIRA AQUI] https://amzn.to/3NAaDLz
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