Deus, o Sofrimento e a Maniçoba: O que Suassuna e Espinosa diriam sobre o Círio de Nazaré?

O ícone brasileiro, Ariano Suassuna, com sua simplicidade habitual, nos colocou diante de um dos paradoxos fundamentais da existência, a fé. Quando perguntavam se ele acreditava em Deus, ele não vinha com teologia barata. Ele mandava a real: Deus é uma necessidade!

Para Suassuna,a morte e o sofrimento tornariam a existência um “jogo cruel” se não houvesse um ser superior “gerenciando” tudo. Porém, ele não é um crente ingênuo. Ele sabe que a própria existência de Deus é colocada em xeque pelo maior dos problemas filosóficos: a existência do mal. Será que Deus “errou na mão” e, ao tentar educar, infligiu um sofrimento desproporcional em nós, os seres criados?

Aqui, o nordestino abre a porta para Baruch Espinosa. Esse filósofo nasceu em 1632 e experimentou, em primeira mão, na sua vida pessoal os efeitos do extremismo religioso. Olhem só a vida do coitado: Seus pais, de origem portuguesa e judeus, foram expulsos de Portugal pela inquisição e se refugiaram em Amsterdam, onde ele veio ao mundo. Mesmo assim, com somente 23 anos, Espinosa foi expulso e repudiado da comunidade judaica, incluindo sua própria família, por conta de seus livros e suas ideias filosóficas sobre Deus! “Mãe, pai, quem são os extremistas agora?”   

Espinosa condenava o Deus dogmático, pessoal, que age como um monarca. Deus é o próprio universo, a causa de tudo que existe e não um gerente externo. Espinosa foi excomungado pois, para ele, não era possível aceitar que Deus condenasse alguém ao sofrimento eterno por comer carne vermelha em um sexta-feira específica no ano, por exemplo. Para ele essa ideia, e várias outras, era criação de humanos e não de Deus. O mal e o sofrimento não são castigos, mas sim a “parte humana” do mundo contribuindo para diminuir nossa potência de agir.

Se o Deus de Suassuna é uma necessidade em face das dificuldades da vida e o Deus de Espinosa é a racionalidade impessoal do cosmos, onde entra a fé popular nessa estrutura teológica?

A resposta mais perfeita para encontrar a sintonia entre dogma e fé popular está em Belém do Pará e se chama Círio de Nazaré. Estamos falando de uma celebração dogmática pois se refere ao mistério da imagem de Nossa Senhora de Nazaré achada pelo caboclo Plácido nas margens de um igarapé. Mas, em sua dimensão prática, ele é uma espetacular manifestação popular do Deus de Espinosa em solo brasileiro! Para completar, o Círio também é a prova de que a religiosidade popular pode ser até filosoficamente mais sofisticada que a própria doutrina que a origina.

Quando mais de dois milhões de pessoas saem em procissão pelas ruas de Belém, não é em obediência ao papa (o evento é descrito como um “espaço ecumênico” onde quase metade dos participantes se declara sem religião), o que move essas pessoas é a experiência sensorial e coletiva da fé. O Círio é movimento, suor e fé! O divino não é a imagem na berlinda, é o coletivo, a comunhão humana, o cheiro da maniçoba e a “experiência sensorial amplificada”. O momento em que o corpo individual e a mente coletiva se tornam uma só coisa, eles estão expressando nossa máxima potência de agir pois o indivíduo se sente multiplicado ao pertencer ao todo.

O povo não vai ao Círio para pedir a um Deus externo que mude a ordem da natureza. O povo vai ao Círio para se fundir com a própria ordem da natureza. A devoção não é submissão a um rei, mas a imersão na totalidade coletiva da vida.

Suassuna teme o desamparo e busca sentido na fé, mesmo diante do “pranto salgado”. Espinosa oferece a única resposta filosófica que sobrevive ao pranto: Deus é o pranto, assim como é a alegria. Já o Círio de Nazaré é a síntese. É a fé necessária de Suassuna, despida do dogma de um Deus pessoal, e manifestada como a experiência do Deus imanente de Espinosa, nas pessoas! A religião não serve para te salvar do inferno. Serve para te unir ao outro, nem que seja no aperto, no calor e na fé de que, no final, somos mais fortes para sobreviver ao mal se estivermos “juntos”.


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