A Arte de “Parir Ideias”
Imagine o seguinte cenário: você está em um aeroporto qualquer esperando sua vez de embarcar. Ainda faltam 4 horas para seu voo sair e você decide passar na livraria; afinal, faz tempo que você deseja ler um livro novo e esse pode ser o momento perfeito para começar. Ao entrar numa livraria qualquer de um aeroporto aleatório, o que você vê? Entre livros de romances com vampiros e mundos de fantasia, você percebe uma seção de destaque. São livros com capas coloridas, chamativas, prometendo que você vai ficar rico, encontrar o propósito da sua vida ou desenvolver um “mindset específico” tudo isso em 7 dias. Bem-vindo à seção de autoajuda, a mais rentável da indústria editorial.
Toda essa seção existe por causa de uma premissa tão aceita hoje em dia que ninguém nem a discute. Estou falando da ideia de que a resposta para os nossos problemas não está no mundo, mas dentro de nós. Há 2.400 anos (quando não existia microfone de lapela e nem curso online), apareceu alguém que se dispôs a ajudar as pessoas a responder às mesmas perguntas existenciais que ainda fazemos hoje (e ele nem cobrava por isso!). Sua abordagem era tão única que ele foi condenado à morte, e dividimos a história da filosofia entre antes dele e após ele. Hoje vamos falar de Sócrates, o primeiro coach da história!
Pedra, parto e a famigerada pergunta: “como ser um homem melhor?”
Para entender Sócrates, precisamos começar olhando para a árvore genealógica dele. Seu pai, Sofronisco, era escultor e talhador de pedras, e sua mãe, Fainarete, era parteira. Tire um momento, feche os olhos e imagine o pequeno Sócrates crescendo e observando que seu pai passava o dia tentando impor uma forma externa à pedra bruta. Ele moldava o objeto, a pedra, de fora para dentro. Já sua mãe ajudava a natureza a fazer o seu serviço. O trabalho dela era diminuir a dor do parto, trazer uma nova vida ao mundo e cuidar da saúde da mãe e do bebê. Esse trabalho, metafisicamente falando, era o oposto do trabalho de Sofronisco, seu marido. O parto era de dentro para fora.
Depois de crescer, casar, ter filhos e até ir à guerra, Sócrates percebeu que a “verdade” não é algo que você esculpe na pedra e “enfia” na cabeça de alguém de fora para dentro; a verdade já está lá dentro. Ela só precisa de ajuda para sair. Ele pensou: “Quer saber? Vou seguir a profissão de Dona Fainarete. Vou ajudar homens a nascerem novamente”.
Se ele vivesse hoje em dia, talvez Sócrates abrisse uma escola, um canal no YouTube ou os dois. Mas, morando em Atenas, ele começou a simplesmente abordar as pessoas na rua e começar a fazer perguntas. Ele não afirmava, sempre perguntava e escutava. Assim, ele criou o método que chamamos hoje de “Maiêutica”, que em grego significa “dar à luz” ou “parir”.
Ele parava um general, experiente e condecorado após várias batalhas, e perguntava: “O que é a coragem?”. O general dava uma resposta (como um general experiente não iria saber a definição de coragem?), Sócrates fazia outra pergunta, e outra e mais outra, todas aparentemente inocentes, mas cada uma destruía a certeza da resposta anterior. Assim, ele ia descascando o sujeito até sobrar apenas a ignorância. Nesse momento mágico, ele fazia alguém perceber que “só sei que nada sei”. Aí começava o parto de verdade!
A tese de autoajuda dele era a mesma do oráculo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”. Ele acreditava que, se você olhasse para dentro e limpasse a sujeira das opiniões falsas (doxa), você encontraria a verdade (episteme) e a excelência (areté) para agir no mundo. Aquilo que entregamos ao exterior é apenas um reflexo do interior. O grande problema para Sócrates foi que ninguém gosta de ter suas certezas destruídas no meio da praça pública.
O preço da verdade
A elite de Atenas não curtiu ver seus filhos questionando o status quo, e Sócrates foi acusado criminalmente! A acusação foi dupla: “desrespeitar os deuses da cidade” e “corromper a juventude”. Olhando para o passado com os olhos de hoje, dá para dizer que o julgamento de Sócrates foi o primeiro grande cancelamento da história ocidental.
O nome dos seus acusadores é famoso até hoje (como Sócrates prometeu): Anito, Meleto e Lícon. Ele teve a chance de fugir, de pedir desculpas, de pagar uma multa. Mas ele era teimoso (ou íntegro?) e aceitou sua condenação à morte dizendo:
“…eis a hora de partir: eu para a morte, vós para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo, ninguém o sabe, exceto os deuses”
Será que alguém que desrespeita os deuses falaria algo assim antes de tomar uma taça de cicuta (veneno) goela abaixo?
Sócrates é o pai da autoajuda, sim. Mas da autoajuda raiz. Aquela que diz que olhar para dentro dói, que pensar por conta própria é perigoso e que a busca pela verdade pode te custar a vida. Enquanto o coach moderno promete que você vai ficar milionário se vibrar na frequência certa, Sócrates prometeu que, se você buscasse a sabedoria, você seria virtuoso, mesmo se morresse pobre e condenado pelo estado.
No fim das contas, a mensagem dele permanece: você prefere uma mentira confortável ou uma verdade que pode te matar? A escolha, como sempre, é sua. Você está preparado para admitir que, na verdade, sua única certeza é que você não sabe de nada?


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