Marx vs. Weber : Duelos de Gigantes. Parte 1 de 4

Olhares complexos que moldaram, e continuarão a moldar, o mundo!

O principal motivo para a existência do Complexus, se eu fosse obrigado a escolher somente um, é mostrar que a realidade é tão diversa que não existe uma teoria única capaz de explicá-la totalmente. Também acho que, com a quantidade de informações às quais temos acesso hoje em dia na internet, isso chega a ser meio óbvio, né?!

Portanto, para fugir dessa renovada camada de reducionismo que nem sempre se assume como tal, decidi criar a série “Duelo de Gigantes!”. Ela é uma tentativa de descomplicar o complicado, de explicar olhando sob várias perspectivas e também de falar sobre alguns nomes que você COM CERTEZA já escutou, talvez até tenha criticado, mas nunca se permitiu refletir profundamente sobre.

Estamos falando de uma série de quatro artigos, ligeiramente mais curtos do que a média dos que normalmente lançamos por aqui, que relacionam duas teorias, conflitantes ou complementares, de dois (ou mais) grandes pensadores. Eles mudaram nossa maneira de compreender o mundo e, pasmem, continuam relevantes para explicar a nossa vida e a sociedade mesmo décadas, ou até séculos, depois de serem “lançados”.

Eu até poderia escrever um artigo só para explicar por que isso acontece, mas decidi economizar meu tempo e o seu; serei breve neste ponto específico: é mais fácil vender algo que seja simples de explicar. Muita gente ganha muito dinheiro quando nos convence de que não precisamos pensar muito quando a intenção deveria ser “apenas” consumir. Lembre-se disso da próxima vez que sua rede social favorita mostrar um anúncio do seu perfume de uso diário (como será que o algoritmo sabe?) no meio das postagens sobre as próximas eleições, por exemplo.

Para começar em grande estilo, vamos falar de verdadeiros GIGANTES: Marx e Weber. Suas ideias vão lutar neste octógono fictício e terão ajuda! Hegel, do lado de Marx, e Popper, do lado de Weber, entram em cena para entendermos:

  • a teoria marxista em si e como ela se apropria de Hegel para explicar a sociedade do seu tempo;
  • como Weber supera a luta de classes ao formular o conceito de “espírito do capitalismo”;
  • e como Karl Popper, com seu racionalismo crítico, dialoga (e provoca) com os três pensadores anteriores.

Alemanha de Marx e de Weber

É bastante curioso como o mesmo país, em épocas com apenas 50 anos entre uma e outra, conseguiu produzir dois intelectuais tão relevantes (e com pensamentos tão distintos a respeito da organização social humana) como Marx e Weber. Em 1848, por exemplo, o jovem Marx atuava como jornalista e cobriu greves de trabalhadores operários em Berlim e Frankfurt. Essa Alemanha fervilhava com grandes mudanças em um período muito curto de tempo. Olhando em retrospectiva, os choques sociais que se seguiram são consequências óbvias, pois revoluções tecnológicas significativas sempre reorganizam a economia e, através dela, mudam as relações sociais.

A primeira metade do século XIX trouxe a expansão da indústria da máquina a vapor para uma Alemanha ainda em unificação. Em grande parte, foi justamente essa necessidade de uma maior integração, para atender à necessidade de comércio entre os reinos, que fez a malha ferroviária do país saltar de 469 km para 5 000 km somente entre 1840 e 1850. O carvão pintou de cinza o céu da região do Ruhr e estima-se que a produtividade média de um trabalhador tenha aumentado dez vezes com as tecelagens mecânicas. Um dos símbolos das mudanças e revoluções dessa época foi que as roupas de algodão se tornaram muito baratas e passaram a ser mais usadas do que as roupas de linho. Perceba que esse é um exemplo claro de uma mudança social relevante na vida cotidiana por razões puramente materialistas. Roupas de algodão passam a ser mais usadas porque trazem mais conforto térmico? Porque são mais confortáveis? Não: ficou mais barato fabricá-las, portanto elas passaram a ser mais disponíveis e usadas. Mudanças como essa, na verdade, a sua causa, não passaram despercebidas para o jovem Marx. A vida material determina a vida social! Essa ideia norteia praticamente toda sua produção científica, sua visão da sociedade da época e sua “solução” para os problemas sociais.

Avançando uns 40 anos para o futuro, chegamos à Alemanha de Weber. Já unificada e passando pela segunda Revolução Industrial (a revolução do aço e da eletricidade), o país viu sua população, que era majoritariamente rural no início do século anterior, passar a ter mais da metade dos cidadãos vivendo em cidades a partir de 1895. Os movimentos sociais conquistaram direitos importantes, como aposentadoria e seguro-doença, e, para conseguir oferecer à população essa gama cada vez maior de serviços, o tamanho da máquina estatal bateu recordes! Em 1913, por exemplo, existiam aproximadamente 600 000 funcionários no Estado — o triplo de 1871. Weber era pesquisador de uma nova área do conhecimento: as cidades e seus aglomerados clamavam por uma ciência para chamar de sua, surgiu a sociologia. Sua teoria social não nega o materialismo, mas explora outras camadas que, segundo vários críticos, Marx não entendeu como determinantes. A religião e a cultura são exemplos perfeitos — e que surgiram naturalmente — pois Weber viajou várias vezes aos Estados Unidos e pôde notar que a nação americana, de maioria protestante, tinha paradigmas sociais muito diferentes, e outros muito parecidos, dos paradigmas da sociedade alemã da época. Ele serviu como diretor de um hospital durante a Primeira Guerra Mundial, esteve entre os delegados que fizeram parte da comitiva alemã que assinou o Tratado de Versalhes e foi conselheiro dos redatores da Constituição da República de Weimar.

Semelhanças e diferenças?

Marx e Weber, bebendo da fonte Hegel, concordam que a realidade só pode ser explicada como um momento histórico resultante da interação de eventos históricos passados. Eles também enxergam a modernidade como criadora de “jaulas” ao redor do homem, mas divergem sobre o que seriam, metafisicamente falando, essas jaulas em si e sobre suas consequências para nossa vida social. Eles não concordam também sobre a “força” que move a sociedade e motiva a ação humana (além da satisfação das necessidades básicas), nem em qual sentido ela atua, se é algum conceito coletivo influenciando a ação do indivíduo ou a ação individual atuando e mudando a percepção social coletiva.

Para entender melhor, precisaremos aprofundar os conceitos centrais de cada um deles e depois compará-los, inclusive à luz de acontecimentos posteriores a ambos, como nos mostra a filosofia social de Popper. Insira seu e-mail abaixo e assine o Complexus; dessa forma você será avisado quando saírem os próximos artigos desta série. Venha acompanhar conosco o desenrolar dessa história e venha você mesmo julgar se existe alguém, Marx ou Weber, certo ou errado dentro da sua interpretação da nossa sociedade.


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Uma resposta a “Marx vs. Weber : Duelos de Gigantes. Parte 1 de 4”

  1. […] primeiro artigo da série (link) nós lançamos a base para a comparação que pretendemos fazer, Marx x Weber, e nesse segundo […]

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